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domingo, 27 de setembro de 2009

A nova terrinha. Tem visual da cidade. Cerradão forte, nem sei o que pode se fazer por lá. Mas tô bem sereno nessa hora. Aguardo e ajo no tempo dos acontecimentos para não atropelar o processo. O lugar fica a cerca de 120 Km de BsB, nem precisa passar na cidade pra chegar lá. Tem energia elétrica e transformador zerinho, além de um poço artesiano com água limpinha. Falta uma capinada, ajustes na casinha que tem lá, ligar a energia, fazer obras de encanamento, caixa d'água, essas coisas...
No bojo desses projetos inusitados para um assalariado, me peguei lembrando dos colegas de trabalho que faleceram nos últimos dois anos. Jardim e Lena, vítimas de câncer respectivamente em 2007 e 2008. E o conhecimento que essas pessoas adquiriram, as vivências, realizações, as memórias e a filosofia? Qual a razão de tantos planos e tanta energia dedicada a um objetivo se partiremos desse estágio sem aviso?
Pra variar, minha mania de advogado do diabo me coloca essas questões. Tudo é passível de questionamento e compreensão, mesmo sem haver nenhuma pista de como testar o fenômeno. É por isso que questiono os planos humanos. Temos mesmo é que ajudar o próximo em lugar de se esconder. Temos que usar menos os recursos em lugar de somente defender a coleta seletiva de resíduos sólidos. Temos é que abrigar e criar a idéia do novo comportamento. Mas fazer o que eu escrevo não é simples nem pra mim. Adotar um modelo de vida e de consumo que esteja fora do grande modelo social é projeto para uma existência. Você tem que se tornar exemplo sem desejar isso. Tem que revolucionar o sistema e mostrar alternativas sem se chocar com o que vigora. E estaria eu no caminho certo ao investir num pedaço de terra no alto da serra? Um recanto de comunhão com a natureza.
Deixo a resposta para esse dilema por conta do tempo. Não quero boicotar o projeto pessoal, mas também não posso me jogar nas coisas de coração somente. O cérebro também deve funcionar nessas horas. Sentimentos são lindos mas não sustentam a estrutura se vc não for um artista de talento. E ainda tem essa: você tem que ser rotulado como criativo, senão... Espere a próxima geração! E é por isso, por não esperar alguém que dê valor ao que eu penso, sinto e realizo, que eu vou fazer a minha plantação, foi da relação do homem com a planta que a comunidade humana contemporânea pôde atingir o estágio de sociedade da informação...
Ai volto a outro assunto que abordei aqui: pra onde vão ações e filosofias que executamos e defendemos depois da morte? Terra, morte, informação. Pirenópolis, Jardim e Heleninha, afetos e conhecimento. O resumo é morar no mato e ter a melhor conexão possível na Internet, além de uma boa coleção de ferramentas, contatos com gente da região e uma biblioteca particular.
Terra e informação. A morte chega, não se preocupe...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Explicando a história. Estive na cidade histórica (não parece mas é!) no final de junho deste ano. Encantado com a belezas da Chapada, esse outro lado menos explorado e divulgado da região começou a me seduzir no sentido de me tornar proprietário de um pedaço de chão na terrinha. Assuntando num restaurante, descobri o contato de um agente que poderia me apresentar a algumas oportunidades. Uma semana depois recebo a visita da moça que me informou esse contato. Ela me conta que estava fechando negócio numa região muito interessante e bem próxima à cidade. Na semana seguinte lá estava eu novamente pra conhecer a terra. Lugar lindo, com muita água, nascentes, sol, montanhas, veredas e um rio sem ponte pra atravessar. A paixão bateu forte e eu fui atrás. Uma galera também se empolgou e quis participar, o qual tomava uma dimensão inesperada.
A questão é a seguinte: comprar um terreno, ser dono de um pedaço de terra num local onde o turismo vem crescendo soa como um ótimo negócio, né? Mas não tenho pretensões financeiras na jogada. Não quero especular e vender mais caro depois. Terra pra mim é sagrada, deve ser tratada com o mesmo zelo que tratamos uma nascente ou um curso dágua, uma vereda ou um ninho de araras. E o contexto onde seu futuro nessa terra acontece também importa. Comecei a considerar alguns pontos da cidade, pois queira ou não esse é o cenário do futuro. São as pessoas e a estrutura da cidade que farão parte do cotidiano. Nesse quesito, a idéia de ser dono de uma terrinha começa a esfriar.
Uma cidade antiga mas não parece ser. Não há patrimônio arquitetônico, museus ou acervos, a história da cidade. Mas por outro lado, as pessoas lá vivem como se não houvesse outro lugar no mundo, com seus costumes e tolerância a gente e hábitos diferentes. Foi assim que comecei a a acessar a sua verdadeira vocação: permanecer do jeito que está. Os processos de exploração de minério andam a passos lentos mas andam. Tem muito caminhão carregado de manganês saindo de lá. Mas parece que não deve prosseguir. Os planos de construção de um resort internacional pairam no ar da cidade, mas só de helicóptero pra visitar as cachoeiras, já que não há estrutura na cidade para abrigar as exigências de um turista de alta classe. Não há uma conjuntura favorável à exploração da atividade, não pela ausência de atrações (muito pelo contrário, são quase 300 cachoeiras e lugares de natureza intocada e paisagem deslumbrante, águas cristalinas e praias de areia branca), mas sim pela postura em relação a quem vem de fora. O turista não é visita alviçareira ou oportunidade. Acho que tem gente na cidade que não gosta nada de negócios mudando a rotina do lugar. A estrutura comercial não favorece nem atrai o turista, já que nesse ponto a cidade não tem diversidade. Imagino que as iniciativas em incrementar o turismo por lá tenha somente a beleza natural, pois a cidade é até sem graça. Mas a gente de fora que lá mora recebe bem quem chega.
Então, como estaria eu inserido nessa situação onde o mato é mais interessante sem a cidade pra apoiar? Como viver numa cidade onde não há uma circulação de idéias e pessoas, que não há essa conexão entre o passado e a abertura para o futuro? Não é esse o caso de outras cidades turísticas (que recebem pessoas do mundo inteiro, cada uma à sua maneira, mas recebem). Posso estar comentendo uma injustiça, mas as pessoas que conheci na cidade não conseguiram me mostrar um lado mais positivo. Admito que meu ponto de vista é limitado, não passei uma temporada inteira na cidade para falar com mais propriedade. Mas também, a distância daqui não ajudam em visitas frequentes.
E assim vou me despedindo da idéia de ter essa terra por lá, não só pela cidade mas também pela cultura do local. Creio que a comunidade quilombola que vive distante mas ainda no município, seja mai acolhedora que os habitantes da histórica cidade. Lá se vão cerca de 10 anos de investimento turístico nesse outro lado do Parque. Já ouvi dizer que existe uma confluência energética que busca barrar o crescimento da região. Conspiração interdimensional para o ocaso dos tempos, os continentes e a Chapada acolhendo quem não partir. Só um cristal gigante e maciço no subsolo para gerar tanta energia...